Resposta curta: A Resolução CNJ nº 615/2025, publicada em 18/03/2025 e vigente desde então, é a norma que rege o uso de Inteligência Artificial em todo o Poder Judiciário brasileiro. Substituiu a Resolução 332/2020 e estabelece 10 princípios fundamentais (supervisão humana, transparência, não discriminação, explicabilidade, segurança, responsabilização, privacidade, auditabilidade, centralidade do usuário e ética). Classifica sistemas de IA em três níveis de risco (baixo, alto e excessivo — este último proibido), exige comitê de governança de IA em cada tribunal, obriga auditorias periódicas e veda decisões judiciais exclusivamente automatizadas.

Se o PL 2338/2023 é o "Marco Legal da IA" em tramitação no Congresso, a Resolução CNJ 615/2025 é o que JÁ está em vigor no Judiciário. Aprovada pelo Plenário do CNJ em 11/03/2025 e publicada em 18/03/2025, ela rege todos os tribunais do país — do STF aos Juizados Especiais. Este guia destrincha os 10 princípios, as obrigações práticas dos tribunais e o que muda na rotina de quem atua no contencioso em 2026.

📅O Caminho Até Aqui: Da 332/2020 à 615/2025

A governança de IA no Judiciário brasileiro não começou em 2025. Veja a trajetória:

AnoMarcoStatus
Ago/2020Resolução CNJ 332/2020 — primeira norma sobre IARevogada em 2025
Out/2023Portaria CNJ — cria Grupo de Trabalho para revisãoPreparatória
Mar/2025Resolução CNJ 615/2025 aprovada por unanimidadeEm vigor
Jul/2025Prazo para tribunais criarem Comitês de GovernançaEncerrado
2026Primeiras auditorias + Relatórios Públicos de TransparênciaEm execução

A Resolução 332/2020 foi pioneira, mas curta: apenas 25 artigos e focada principalmente em ética. A 615/2025 tem 74 artigos e regulamenta todo o ciclo de vida de sistemas de IA no Judiciário — desde desenvolvimento, passando por operação, até descomissionamento.

🎯Os 10 Princípios Fundamentais

O artigo 4º da Resolução elenca os princípios que norteiam o uso de IA no Judiciário:

#PrincípioO Que Significa
1Supervisão HumanaIA nunca decide sozinha — juiz humano revisa e assina
2TransparênciaTribunais devem publicar quais IAs usam, para quê e com quais dados
3Não DiscriminaçãoSistemas devem evitar viés de raça, gênero, classe, região
4ExplicabilidadeA IA deve justificar suas saídas em linguagem compreensível
5SegurançaProteção contra ataques, vazamentos e adulteração
6ResponsabilizaçãoCadeia clara: quem desenvolveu, quem operou, quem supervisionou
7Privacidade/LGPDIntegração com a LGPD (Lei 13.709/2018)
8AuditabilidadeLogs, rastreabilidade e possibilidade de auditoria externa
9Centralidade do UsuárioIA deve servir ao jurisdicionado, não aos fornecedores
10ÉticaAlinhamento com o Código de Ética da Magistratura e OAB
📌 Importante: esses princípios não são decorativos — cada um gera obrigações específicas nos capítulos seguintes da Resolução.

⚖️Classificação de Risco: O Modelo de 3 Níveis

O artigo 15 adota um modelo espelhado no AI Act europeu e no PL 2338/2023:

✅ Risco Baixo (uso livre, com registro)

⚠️ Risco Alto (uso permitido com rigor)

Requisitos para risco alto:

  1. Avaliação de Impacto Algorítmico (AIA) antes da implantação
  2. Comitê de Governança revisa trimestralmente
  3. Relatório Público de Transparência anual
  4. Auditoria externa obrigatória a cada 2 anos

🚫 Risco Excessivo (PROIBIDO)

O artigo 17 veda expressamente no Judiciário:

💥 Consequência: violação dessas vedações = nulidade absoluta do ato processual e possível responsabilização disciplinar do magistrado.

🏛️Obrigações Para os Tribunais (2025-2026)

A Resolução deu prazos escalonados:

PrazoObrigaçãoBase Legal
Até Jul/2025Criar Comitê de Governança de IA com magistrados, servidores e sociedade civilArt. 22
Até Out/2025Publicar Inventário Público de Sistemas de IA usadosArt. 45
Até Dez/2025Aprovar Política Interna de Uso de IAArt. 23
Até Mar/2026Primeiro Relatório Anual de TransparênciaArt. 48
A partir 2026Treinamento obrigatório anual para magistrados e servidoresArt. 60

O painel do CNJ consolida os inventários de IA de todos os tribunais — é fonte pública consultável para advogados que precisam saber quais sistemas afetam seus processos.

💼5 Impactos Diretos Para a Advocacia

1. Direito de Saber Quando Há IA no Processo

O advogado pode requerer informação sobre se uma IA interveio em qualquer ato processual (triagem, minuta, cálculo). O tribunal tem 15 dias para responder (art. 52).

2. Contestação de Decisão Baseada em IA

Se o magistrado usou sugestão de IA, a parte pode:

3. Uso de IA Pelo Próprio Advogado

A Resolução não proíbe advogados de usarem IA, mas reforça o disposto no Provimento CNJ 213/2025 e no Art. 34 do EOAB (sigilo profissional).

💡 Recomendações práticas:
  • Preferir IA local/on-premise para dados sigilosos
  • Nunca colar dados de cliente em ChatGPT, Gemini ou Copilot público sem anonimização
  • Revisar integralmente qualquer minuta produzida por IA antes de peticionar

4. Prova Produzida Por IA

A Resolução 615 dialoga com a recente decisão do STJ no HC 1.059.475/SP, que rejeitou relatório de IA generativa como prova penal. Regra geral: laudos produzidos por IA precisam ser validados por perito humano cadastrado (art. 38).

5. Honorários e Automação em Massa

Escritórios que usam IA para petições em massa precisam observar:

🔬O Que Está Funcionando Hoje (Abril 2026)

Principais sistemas de IA ativos em tribunais após a Resolução 615:

TribunalSistemaFunção
STFVICTORClassificação de repercussão geral
STJSÓCRATESAnálise de similaridade entre recursos
TSTBem-Te-ViTriagem de recursos de revista
CNJSINAPSESPlataforma unificada de modelos de IA
TJSPAssistente JUDIMinuta de decisões em execução fiscal
TJDFTAmonAnálise de documentos processuais

Todos operam sob supervisão humana obrigatória — nenhum profere decisão final automaticamente.

📆Cronograma 2026: O Que Ainda Vem

Checklist Prático Para o Escritório

Para Sócios/Gestores

Para Advogados Atuantes

Para Advogados Desenvolvedores/LegalTechs

Perguntas Frequentes

A Resolução CNJ 615/2025 vale para advogados também?+
Diretamente, não. Ela regula o uso de IA pelos tribunais. Mas afeta indiretamente ao definir o que o advogado pode exigir em termos de transparência e contestação. O uso de IA pela advocacia é regido pelo EOAB + Provimento CNJ 213/2025 + LGPD.
Todo tribunal já tem Comitê de Governança de IA?+
Sim. O prazo era julho/2025 e a quase totalidade dos tribunais cumpriu. Algumas Justiças Estaduais menores ainda estão em fase de estruturação operacional em 2026.
Posso pedir nulidade se o juiz usou IA?+
Não pelo simples fato do uso. Você pode pedir nulidade se: (a) não houve supervisão humana real (ex: decisão com 5.000 parágrafos em 2 minutos); (b) o sistema é de risco excessivo (vedado); (c) houve erro factual não corrigido pelo magistrado; (d) a parte não teve acesso à informação sobre uso de IA quando requereu.
A Resolução 615/2025 revoga a 332/2020?+
Sim, expressamente no artigo 74. Todos os atos e referências da 332/2020 devem ser adequados à 615/2025.
A Resolução vale para arbitragem e mediação privada?+
Não. Aplica-se apenas ao Poder Judiciário. Arbitragem privada é regida pela Lei 9.307/1996 e regulamentos de cada câmara. Mas muitas câmaras voluntariamente adotaram os princípios da Resolução.
Onde consulto o texto integral da Resolução?+
No portal oficial: atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5036. Também está consolidada no DOU de 19/03/2025.

📚Recursos Oficiais

🎯Conclusão: A Norma Que Já Está em Vigor

A Resolução CNJ 615/2025 é a norma mais importante sobre IA em vigor no Brasil em 2026 — enquanto o PL 2338/2023 ainda tramita. Ela estabelece o teto ético e operacional para toda IA judicial, protege o jurisdicionado com direitos concretos de transparência e contestação, e impõe rigor de governança a tribunais e fornecedores.

Para o advogado, conhecer a Resolução é dupla vantagem: (1) saber o que pode ser exigido dos tribunais em termos de informação e (2) orientar-se sobre o que é aceitável ao usar IA no próprio trabalho.

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