Resposta curta: é a "repercussão geral do STJ". O recurso especial deixa de ser a "terceira instância automática": o tribunal só conhecerá do recurso se a questão de direito federal ultrapassar o interesse das partes — pelo peso econômico, político, social ou jurídico. Há hipóteses de relevância presumida (ações penais, improbidade, causas acima de 500 salários mínimos, entre outras), e o afastamento da relevância exige 2/3 do órgão julgador.
Quatro anos depois da EC 125/2022, o filtro de relevância saiu do papel. O PL 3.085/2026, do Senador Davi Alcolumbre, foi autuado em 12/06/2026, aprovado em caráter terminativo na CCJ em 01/07, aprovado pelo Senado em 09/07 e, concluída a tramitação na Câmara, remetido à sanção presidencial em 17/07/2026. Se sancionado, muda a arquitetura recursal brasileira: escrever recurso especial passa a exigir uma peça de convencimento que a maioria dos advogados nunca escreveu. Este guia destrincha o texto final, artigo por artigo.
De Onde Veio: a Regulamentação Que Faltava
A Emenda Constitucional 125/2022 acrescentou o §2º ao art. 105 da Constituição: no recurso especial, o recorrente deve demonstrar a relevância das questões de direito federal infraconstitucional, e o STJ só pode recusar o recurso pela manifestação de 2/3 do órgão competente. Era o espelho da repercussão geral — que desde 2007 filtra o recurso extraordinário no STF.
Só que a EC 125 dependia de lei regulamentadora — e ela nunca veio. Por quatro anos, o filtro existiu na Constituição e não existiu na prática. O PL 3.085/2026 fecha essa lacuna criando o art. 1.035-A do CPC e ajustando todo o sistema recursal (arts. 927, 932, 979, 988, 998, 1.030, 1.039 e 1.042) para acomodar o novo regime.
O Coração da Lei: o Novo Art. 1.035-A do CPC
O dispositivo central cabe numa frase dura: "o STJ, em decisão irrecorrível, não conhecerá do recurso especial quando a questão de direito federal infraconstitucional nele versada não for relevante". Destrinchando os parágrafos:
O que é "relevante" (§1º)
Existência de questões relevantes do ponto de vista econômico, político, social ou jurídico que ultrapassem os interesses subjetivos do processo. É a mesma régua conceitual da repercussão geral: o caso precisa importar para além das partes.
O tópico obrigatório (§§2º e 3º) — a mudança que pega TODO advogado
O recorrente deverá demonstrar a relevância em tópico específico e fundamentado. E o §3º não deixa margem: desatendida a forma, o recurso será inadmitido. Não é recomendação — é requisito formal de admissibilidade, como o prequestionamento. O recurso especial ganha um capítulo novo obrigatório, e quem esquecer perde o recurso sem discussão de mérito.
Relevância presumida (§4º)
Presume-se a relevância nas hipóteses do art. 105, §3º, da Constituição (redação da EC 125/2022):
- Ações penais
- Ações de improbidade administrativa
- Causas com valor superior a 500 salários mínimos
- Ações que possam gerar inelegibilidade
- Hipóteses em que o acórdão recorrido contrariar jurisprudência dominante do STJ
- Outras hipóteses previstas em lei
Na prática: nessas causas o tópico tende a ser um enquadramento objetivo; fora delas, é trabalho de construção argumentativa da transcendência — o novo campo de batalha do recurso especial.
A trava dos 2/3 (§6º) e o julgamento presencial (§8º)
Afastar a relevância exige manifestação de dois terços dos membros do órgão competente — a presunção joga a favor do recorrente que fez o dever de casa. E o julgamento sob o regime será em sessão presencial, salvo quando o relator votar por não reconhecer a relevância ou por reafirmar jurisprudência dominante.
Suspensão nacional (§7º)
Reconhecida a relevância, o relator pode suspender todos os processos — individuais ou coletivos — que versem sobre a questão em todo o território nacional, por 6 meses, prorrogáveis uma única vez por mais 6. Quem advoga em teses de massa precisa colocar isso no radar: uma afetação pode congelar carteiras inteiras por até um ano.
O Efeito Sistêmico: Precedente Obrigatório e Portas Que Se Fecham
O projeto não cria só um filtro — reorganiza o sistema de precedentes em volta dele:
| Dispositivo alterado | O que passa a valer |
|---|---|
| Art. 927, III-A | Acórdão em REsp sob o regime de relevância vira precedente de observância obrigatória por juízes e tribunais |
| Art. 932, IV e V | Relator pode negar ou dar provimento monocraticamente com base em acórdão de relevância reconhecida |
| Art. 988, V e §5º | Cabe reclamação (em casos excepcionais) para garantir a observância do precedente — mas será liminarmente indeferida se não esgotadas as instâncias ordinárias |
| Art. 998, parágrafo único | A desistência do recurso não impede a análise da questão cuja relevância já foi reconhecida |
| Art. 1.030 | O presidente do tribunal de origem nega seguimento a REsp sobre questão sem relevância reconhecida ou conforme o entendimento firmado; e faz juízo de retratação quando o acórdão divergir |
| Art. 1.039, parágrafo único | Negada a relevância no recurso afetado, os recursos sobrestados são automaticamente inadmitidos |
| Art. 1.042 | Não cabe agravo contra inadmissão fundada no regime de relevância |
O Que Muda Para Quem Advoga (na prática)
1. O recurso especial ganha um capítulo obrigatório
Assim como o RE exige a preliminar de repercussão geral, o REsp passará a exigir o tópico de relevância — específico, fundamentado, demonstrando a transcendência da questão. Modelos antigos de recurso especial ficam estruturalmente incompletos da vigência em diante.
2. A régua vale só para acórdãos novos (art. 4º)
A exigência alcança recursos interpostos contra acórdãos publicados após a entrada em vigor da lei. O estoque atual segue o regime antigo — mas a janela é curta: sancionada até 07/08 e publicada, a lei entra em vigor em 30 dias.
3. Estratégia recursal muda desde a origem
A construção da relevância não começa no recurso especial — começa na apelação e nos embargos de declaração, plantando a dimensão coletiva/econômica/social da tese e o contraste com a jurisprudência do STJ (que gera presunção de relevância). Quem só pensar em relevância na hora do REsp vai chegar tarde.
4. Teses de massa: o efeito dominó
Entre suspensão nacional (§7º), inadmissão automática dos sobrestados (art. 1.039) e negativa de seguimento na origem (art. 1.030), o regime foi desenhado para resolver a questão uma vez e replicar. Carteiras repetitivas dependem de quem chega primeiro — e de como chega.
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Cronograma: as Datas Que Importam
| Data | Marco |
|---|---|
| 12/06/2026 | Autuação do PL 3.085/2026 no Senado (autor: Sen. Davi Alcolumbre) |
| 01/07/2026 | Aprovação terminativa na CCJ do Senado |
| 09/07/2026 | Aprovação no Senado Federal (texto final revisado) |
| 17/07/2026 | Concluída a tramitação na Câmara — remessa à sanção presidencial |
| até 07/08/2026 | Prazo para sanção ou veto |
| + 30 dias da publicação | Entrada em vigor (art. 7º) |
| Da vigência em diante | Tópico de relevância exigido nos REsp contra acórdãos publicados a partir daí (art. 4º) |
O Que Fazer HOJE (antes de a régua virar)
- Atualize o modelo de recurso especial do escritório — inclua desde já a seção "Da relevância da questão de direito federal", mesmo antes da vigência: não prejudica e treina a rotina.
- Mapeie a carteira: quais teses suas caem em presunção (penal, improbidade, >500 SM, contrariedade a jurisprudência dominante) e quais vão exigir construção de transcendência.
- Plante a relevância nas instâncias ordinárias: a dimensão coletiva/econômica da tese e o contraste com o STJ devem aparecer na apelação e nos embargos — não só no REsp.
- Acompanhe o regimento interno do STJ (art. 6º): é ele que vai detalhar a execução do regime.
- Nos casos repetitivos, antecipe-se: quem afeta a questão primeiro molda a tese; quem chega depois pega o precedente pronto — a favor ou contra.
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Perguntas Frequentes
Fontes Oficiais
🏛️ PL 3.085/2026 — tramitação oficial no Senado Federal
Texto final revisado, pareceres e movimentação.
📜 Constituição Federal — art. 105, §§2º e 3º (EC 125/2022)
A base constitucional do filtro de relevância.
⚖️ Código de Processo Civil (Lei 13.105/2015)
Dispositivos alterados: arts. 927, 932, 979, 988, 998, 1.030, 1.039 e 1.042 — e o novo art. 1.035-A.
Conclusão
O recurso especial está deixando de ser um direito automático para virar um convencimento. Se o PL 3.085/2026 for sancionado, a peça ganha um capítulo decisivo, as portas de revisão se fecham (decisão irrecorrível + agravo restrito) e o sistema de precedentes ganha um motor novo. Quem se preparar antes — modelo atualizado, carteira mapeada, relevância plantada desde a origem — transforma o filtro em vantagem competitiva. Quem ignorar vai descobrir da pior forma: com a inadmissão formal de um recurso que tinha mérito.
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